O caminho individual e o coletivo Versão em PDF

      Cada um sabe das alegrias e dores de percorrer seu próprio caminho, e ao longo destes primeiros passos no Aikidô percorri um caminho que me deu muitas alegrias, me fez parar para questionar minhas atitudes e me fez crescer muito. Com sua ajuda foi mais fácil enfrentar momentos complicados, olhando e percebendo qual a melhor atitude que eu poderia tomar naquela situação, como num Ma-ai(1) quotidiano.

      Acertei muitas vezes e claro que errei também, pois isto faz parte do aprendizado. Sou grato a todos os meus acertos e meus erros, pois aprendi muito com eles. Como diz O'Sensei Morihei Ueshiba: "Cada erro nos ensina alguma coisa"(2) .

      Sobre as etapas vencidas vinha refletindo nos últimos tempos, até que no dia de exame de 1o kyu, quando estava no tatame, olhei para a direita os kyu pelos quais tinha passado, o caminho percorrido. Lembrava de umas etapas que tinha considerado mais fáceis, outras mais difíceis; numas me achava mais preparado, noutras menos; algumas vezes minha percepção era correta, noutras era o oposto.

      Então eu percebi que, ou este kyu era mesmo diferente ou eu deveria ter entendido todos os outros de maneira diferente, pois a cada exame de kyu que eu passava, sentia orgulho de ter vencido mais uma etapa, sentia como uma grande conquista individual minha. Naquele dia, não. Dei-me conta do quanto havia de cada um ali naquele momento, não apenas meus próprios esforços. Nem é preciso falar dos Senseis Daniel, Federico e todos os com quem tive a oportunidade de treinar e aprender, meu Giri mas dos colegas de treino e caminhada. Desde o Theo e a Bárbara, sempre dando força; ao Mota, que aceitou ser meu uke, com um pedido em cima da hora; da galera falando "vai, tio! vai, tio!" na hora do exame [e me deu vontade de virar para agradecer], às dicas do Alexandre e sua excelente técnica; Marcos (Poa), Danilo e Davi, que foram meus uke nos pré-testes. Não poderia ter passado por tudo sozinho, nem poderia ter feito os exames sozinho, pois precisava de uke, às vezes mais de um. Entendi o quanto precisei de tanta gente para chegar aonde cheguei.

      Foi uma compreensão de que, realmente, o Aikidô é praticado em conjunto. Algo que a gente ouve muito ser falado nos treinos. Mas uma coisa é a teoria, outra é sua compreensão, outra ainda é sua prática. No início não se compreende, depois compreender é mais fácil que praticar. Praticar o que se compreendeu demora mais.

       É também uma compreensão de como nos ajudamos mutuamente, pois o crescimento de um é o crescimento do conjunto e a chegada de uns mais adiante nos estimula a prosseguir, ver que é possível, apesar das dificuldades.

      E como todo grau tem sua contrapartida, fica a consciência da responsabilidade de cada um para consigo e para com os outros na disseminação deste conhecimento.
      
      Ao Daniel, Federico, Theo e Babi, Mota, Alexandre, Odorico e Rafael (um abraço agora à distância), Elie (úúra), Ricardo, Cacau e Fox, Renê (Tio Rê), Jacira e Adriana, Léo, Maurício, Cau, Marcos (Poa) e André (o que não é Poa), Danilo, Davi, Luciano (Pig), Ivan, Ian (Ian San), Filipe, Cleonice e Pablo, Aline, aos Pedros, Rafael Araújo, Neto, Vando e Vítor, Ângelo, Márcio da Nova, Carlos Renato, Elismar e à turma nova que vem trazendo energia nova e boa para o Dojô.

      O meu
      Domo Arigatô Gozaimashita!
      Obrigado a todos.

Por Luciano Hocevar, 1o kyu
AikidoBahia

1) Ma-ai
     O conceito "Ma" é muito utilizado nas culturas asiáticas e dependendo da circunstância em que é utilizado pode significar espaço, intervalo, noção de tempo adequada ou ritmo. ... Nas artes marciais, "Ma-ai" é a noção de correta distância entre os indivíduos que a praticam: próximo ou distante o suficiente para possibilitar o ataque ou a defesa em cada situação. O tempo também está relacionado com "Ma-ai", envolvendo o conceito de estar no momento certo, no lugar certo. Em um nível mais elevado, "Ma-ai" significa avaliar o espaço, aprendendo a se adaptar à várias situações. John Stevens - Os Segredos do Aikidô - Ed. Pensamento.

2) Morihei Ueshiba - A Arte da Paz - Coleção Sábias Palavras, Ed. Rocco.